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Versisognanti

Retrogosto de Língua Perdida

Não é o ferro que morde ou o sal antigo,
nem a flor amarga que o ar desenha.
É uma sombra no paladar, um caminho oblíquo,
onde a voz apagada ainda reina.

Um léxico de cinzas, sílabas quebradas,
um vocabulário que não tem mais eco.
São as ressonâncias que foram amadas,
um alfabeto mudo, um frágil entrelaçamento.

Um farfalhar de raízes sob a língua,
um saber antigo que escapa e se nega.
E ainda resta a alma que se extingue,
a melodia distante que ainda reza.

Explicação

O poema “Retrogosto de Língua Perdida” apresenta-se como uma profunda meditação sobre a perda linguística e cultural, explorando as ressonâncias íntimas e persistentes daquilo que desaparece mas não se anula totalmente. O título em si é uma chave de leitura essencial: o “retrogosto” sugere uma sensação que perdura, um eco amargo e subtil de algo que foi consumido ou perdido, e o “idioma perdido” identifica imediatamente o objeto: não apenas uma língua, mas todo o sistema de pensamento, história e identidade que ela veicula.
A primeira estrofe estabelece imediatamente que a dor evocada não é de natureza física ou tangível (“Não é o ferro que morde ou o sal antigo, / nem a flor amarga que o ar desenha”). O poeta elude as imagens convencionais do sofrer para conduzir o leitor a uma dimensão mais interna e sensorial, quase uma alucinação percetiva. A perda manifesta-se como “uma sombra no paladar, um caminho oblíquo”, sugerindo uma presença fantasma, uma alteração do gosto e da perceção que é tão subtil quanto pervasiva. O paradoxo aninha-se no verso “onde a voz apagada ainda reina”: aquilo que está apagado, inerte, continua a exercer uma influência, uma espécie de soberania espectral que nega o esquecimento total.
A viagem prossegue na segunda estrofe, que concretiza a natureza da perda no âmbito da própria linguagem. Aqui assiste-se à fragmentação e à dissolução dos seus elementos constitutivos: “Um léxico de cinzas, sílabas quebradas, / um vocabulário que não tem mais eco”. A imagem da cinza evoca o que resta após a combustão, um resíduo inerte do que foi vivo e vibrante. As “sílabas quebradas” e o “vocabulário que não tem mais eco” pintam um quadro de desarticulação e silêncio, de um sistema comunicativo esvaziado da sua função vital. A estrofe fecha-se com um lamento pelo que foi: “São as ressonâncias que foram amadas, / um alfabeto mudo, um frágil entrelaçamento”. O oxímoro do alfabeto mudo é particularmente potente, sublinhando como os próprios instrumentos da palavra foram privados da sua voz, reduzidos a um “frágil entrelaçamento” que evoca fraqueza e fragilidade, quase um tecido que se está desfazendo.
A última estrofe eleva a reflexão a um nível ainda mais profundo e visceral, ligando a perda linguística à raiz mesma do ser. “Um farfalhar de raízes sob a língua” sugere uma conexão primordial, quase biológica, entre a língua falada e a identidade mais profunda, um saber ancestral que reside nas fundações do indivíduo. Este “saber antigo que escapa e se nega” é a memória que se dissolve, o conhecimento que se retrai, deixando um vazio. Contudo, apesar desta negação e deste fuga, algo irredutível permanece. O poema fecha-se com versos de struggente beleza: “E ainda resta a alma que se extingue, / a melodia distante que ainda reza”. A perda não é o aniquilamento total, mas uma agonia prolongada do que é essencial. A alma não está morta mas “se extingue”, num processo lento e doloroso, e a “melodia distante” – a essência rítmica e espiritual do idioma – “ainda reza”, uma imagem que confere ao poema uma dimensão de súplica, de invocação desesperada, de uma esperança ténue que resiste ao silêncio.
No complexo, “Retrogosto de Língua Perdida” é uma elegia tocante e profundamente introspectiva. O poeta não descreve a morte de uma língua como um evento definitivo, mas como um lento dissolver que deixa para trás vestígios indeleveis na psique e no corpo de quem a amou ou a herdou. Através do uso apurado de metáforas sensoriais e paradoxos, o poema consegue transmitir a complexidade emotiva de uma perda que não se esgota no silêncio, mas que continua a vibrar como um retrogosto amargo, uma prece sussurrada por uma alma que morre mas não cede totalmente. A força do poema reside na sua capacidade de traduzir um conceito abstrato como a perda linguística numa experiência sensorial vívida e quase dolorosa, um lamento sussurrado que não deixa de ressoar.

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